Quando falamos de saúde pública, não nos referimos apenas a consultas, medicamentos ou cirurgias. Falamos de decisões estruturais, de planeamento e de determinantes que começam muito antes de alguém entrar num hospital.
Na primeira edição de março o programa “Vamos Falar de Saúde”, recebeu o Dr. Paulo Miguel Luvangamo, Director do Gabinete Provincial da Saúde, ex-chefe do departamento do INEMA durante seis anos e especialista em Medicina do Trabalho.
A conversa começou por explicar o papel do Gabinete Provincial da Saúde. É esta estrutura que define políticas de saúde a nível da província, planeia e gere as unidades sanitárias e coordena quatro departamentos responsáveis pelo funcionamento do sistema. Em outras palavras: antes do atendimento, existe organização. Antes da consulta, existe estratégia.
O Dr. Luvangamo explicou também os três níveis das unidades hospitalares — cuidados primários, secundários e terciários — e ajudou a compreender um fenómeno frequente: a sobrecarga do Hospital Central do Lubango.
Segundo o director, muitos dos problemas enfrentados pela unidade — incluindo falhas no telefone de atendimento ao público — estão ligados ao elevado número de pacientes. E por que isso acontece? Porque ainda há défice de unidades exclusivas de cuidados primários em bairros como Comandante Cowboy e outras regiões.
Quando o primeiro nível falha ou é insuficiente, o terceiro nível transborda.
Apesar dos desafios, o Hospital Central do Lubango é hoje o segundo hospital do país a obter certificação internacional de qualidade — um dado que demonstra avanços significativos na organização e padronização dos serviços.
A conversa avançou então para um ponto essencial da educação em saúde: os determinantes da saúde.
Determinantes da saúde são os factores sociais, económicos, ambientais e educacionais que influenciam o estado de saúde das pessoas. Não é apenas a presença de hospitais que define o bem-estar da população. É também o nível de escolaridade, o acesso à informação, as condições de saneamento, o rendimento familiar e os hábitos culturais.
O Dr. Luvangamo destacou dois grandes desafios provinciais: o baixo investimento no sector e a fraca educação em saúde por parte da população. A área mais deficitária continua a ser a dos serviços primários — justamente a porta de entrada ideal para um sistema de saúde equilibrado.
Outro ponto crítico abordado foi a formação técnica. Todos os anos, profissionais são formados no Brasil e em Portugal com o objectivo de elevar a qualidade dos serviços. Ainda assim, a escassez de técnicos impacta directamente a eficiência dos blocos operatórios em municípios como Caluquembe, Matala e na unidade hospitalar Olga Cháves.
A mensagem prática que fica desta edição é clara: saúde pública começa na prevenção e no uso correto dos serviços. Procurar primeiro as unidades primárias, valorizar a educação em saúde e compreender o funcionamento do sistema são atitudes que ajudam a reduzir a sobrecarga hospitalar e melhoram o atendimento para todos.
Ao promover este diálogo com líderes da saúde provincial, o Grupo Liberatos reforça o seu compromisso com a educação sanitária e com a aproximação entre gestão pública e comunidade. Informar é também cuidar.
Março inicia assim com uma reflexão estratégica: para melhorar a saúde da população, é preciso olhar para além das paredes do hospital e compreender as estruturas que sustentam todo o sistema.