A tuberculose continua a representar um dos principais desafios de saúde pública no nosso contexto e as suas complicações vão muito além do sistema respiratório.
No último programa do mês de Junho do “Vamos Falar de Saúde” a jornalista Lucrécia Miguel conduziu uma entrevista aprofundada com a Dra. Juzelmira Nzau, médica interna de Pneumologia, sobre anemias associadas à tuberculose, bem como os seus mecanismos, riscos e formas de prevenção.
Como a tuberculose provoca anemia
Segundo a especialista, a anemia associada à tuberculose integra o grupo das anemias de doença crónica. Assim, quando o organismo é infetado pelo Mycobacterium tuberculosis, desencadeia-se uma inflamação sistémica prolongada.
Por conseguinte, essa inflamação interfere na produção de glóbulos vermelhos na medula óssea. Além disso, bloqueia a utilização adequada do ferro armazenado no organismo. Dessa forma, mesmo quando existem reservas de ferro, o corpo não consegue utilizá-las de forma eficiente, o que resulta na diminuição da hemoglobina.
Tipos de anemia mais frequentes na prática clínica
Na prática hospitalar, a Dra. Juzelmira Nzau destacou que existem diferentes tipos de anemia observados com frequência. Entre os principais, encontram-se:
- A anemia por défice nutricional, frequentemente associada à má alimentação em doentes com tuberculose;
- A anemia falciforme, que possui forte componente genético na região e exige acompanhamento rigoroso.
Além disso, a abordagem clínica tende a focar-se nas causas subjacentes, o que permite um tratamento mais eficaz e direcionado.
Diagnóstico: importância de uma avaliação completa
Para um diagnóstico preciso, a médica sublinhou a necessidade de um protocolo rigoroso de exames.
Em primeiro lugar, realiza-se o hemograma completo. Em seguida, avaliam-se parâmetros do ferro, como ferritina, ferro sérico e capacidade de fixação do ferro. Estes dados são essenciais para diferenciar anemia por inflamação de anemia por carência.
Por outro lado, no contexto da tuberculose, são igualmente importantes os exames bacteriológicos, como a baciloscopia da expectoração e os testes moleculares rápidos. Além disso, a radiografia do tórax permite avaliar a extensão da infeção pulmonar e a resposta ao tratamento.
Gravidez, tuberculose e anemia: um cenário de alto risco
No que diz respeito à saúde materno-infantil, a especialista alertou que a combinação de gravidez, tuberculose e anemia representa um cenário de alto risco clínico.
Por um lado, a mãe pode apresentar fraqueza extrema, maior vulnerabilidade a infeções e risco aumentado de hemorragias durante o parto. Por outro lado, o feto pode sofrer atraso no crescimento intrauterino, parto prematuro e baixo peso à nascença.
Além disso, a médica esclareceu que a transmissão da tuberculose da mãe para o bebé por via placentária é rara. Contudo, o risco mais significativo ocorre após o nascimento, através das vias respiratórias.
Prevenção e cuidados no pré e pós-parto
Assim sendo, o rastreio precoce durante o pré-natal torna-se fundamental. Quando diagnosticada, a grávida deve iniciar tratamento imediato e supervisionado, o qual é seguro quando corretamente acompanhado.
Após o parto, adotam-se medidas adicionais de proteção. Entre elas destacam-se o uso de máscara durante a amamentação, a quimioprofilaxia no recém-nascido e a vacinação com BCG, conforme indicação clínica.
Alimentação e prevenção da anemia
No encerramento da sua intervenção, a médica reforçou a importância da alimentação na prevenção da anemia. De facto, a combinação de alimentos ricos em ferro com vitamina C melhora significativamente a absorção deste mineral.
Entre os alimentos recomendados destacam-se o feijão e o fígado de porco, ambos importantes fontes de ferro.
Além disso, a especialista fez um apelo à doação de sangue. Em situações de anemia grave ou complicações hemorrágicas, a disponibilidade de sangue pode ser decisiva para salvar vidas.
Participação dos internautas
Pergunta (Wanzanza Paladar): Como a tuberculose contribui para a anemia?
Resposta: A inflamação crónica reduz a utilização do ferro e diminui a produção de glóbulos vermelhos, originando anemia da doença crónica.
Pergunta (Talziana Amadeu): Olhos amarelados ou muito brancos são sinais de anemia?
Resposta: A palidez ocular pode indicar anemia. No entanto, o amarelecimento geralmente está associado a problemas hepáticos ou destruição acelerada de glóbulos vermelhos.
Pergunta (Carla Holo): A mãe pode transmitir tuberculose ao bebé?
Resposta: Sim, sobretudo após o nascimento por via respiratória. Por isso, são essenciais medidas de prevenção e tratamento adequado.
Assista à entrevista completa nas plataformas digitais do Grupo Liberatos: Facebook e Instagram.