A primeira edição de maio do programa “Vamos Falar de Saúde” abordou o pé boto, uma condição ortopédica congénita que afecta o posicionamento dos pés à nascença e pode comprometer a mobilidade da criança se não for tratada atempadamente.
O programa contou com a participação de Luís Catumbela, assistente social, e Ana Paula da Silva, ortoprotésista, psicóloga clínica e directora do Centro Ortopédico do Lubango, que apresentaram uma análise clara sobre as causas, diagnóstico e opções de tratamento da condição.
O que é o pé boto e quais as causas?
Durante a sessão, os especialistas começaram por definir o pé boto como uma deformidade congénita caracterizada pela rotação anormal do pé. Foram apontadas três principais causas, com destaque para a origem genética, considerada o factor mais frequente. Também foram mencionados factores associados que podem influenciar o desenvolvimento da condição:
- Factores intrauterinos (durante a gravidez)
- Factores ambientais
- Factores neuromusculares
- Condições associadas (espinha bífida ou artrogripose)
- Outras síndromes genéticas ou neurológicas
Diagnóstico precoce é fundamental
No que diz respeito ao diagnóstico do pé boto, foi explicado que, no contexto local, este é feito principalmente após o nascimento, através de avaliação clínica realizada por fisioterapeutas. Em alguns casos, o problema pode ser identificado ainda durante a gestação por meio de ecografia.
Foram ainda apresentados os dois tipos principais da condição:
- Pé boto idiopático
- Pé boto sindrómico
Tratamento: entre fisioterapia e cirurgia
O tratamento do pé boto pode variar conforme a gravidade do caso, passando por fisioterapia ou intervenção cirúrgica. Segundo os especialistas, a continuidade do tratamento é essencial para evitar complicações, como contraturas e limitações funcionais.
No âmbito das campanhas cirúrgicas realizadas no Lubango, cerca de 58 crianças já foram operadas, demonstrando o impacto positivo dessas iniciativas na recuperação dos pacientes.
O papel do Gabinete do Utente e da família
O Gabinete do Utente foi destacado como peça-chave no processo, sendo responsável pelo registo e acompanhamento dos pacientes. Além disso, tem desenvolvido um trabalho contínuo de sensibilização das famílias, promovendo a adesão ao tratamento e esclarecendo dúvidas sobre a condição.
Parcerias com o Hospital Pediátrico e a Maternidade têm reforçado a educação clínica, enquanto o Centro Ortopédico do Lubango tem apoiado no transporte de pacientes, facilitando o acesso aos cuidados de saúde.
Desafios e apelo às famílias
Um dos principais desafios identificados é a resistência ou abandono do tratamento por parte de algumas famílias, o que pode agravar o quadro clínico da criança. O assistente social Luís Catumbela destacou a importância do acompanhamento contínuo e deixou um apelo à não desistência do tratamento.
Foi também referido que o pé boto afecta com maior frequência o sexo masculino e pode levar a consequências sociais, como o bullying, caso não seja tratado adequadamente.
A primeira edição do “Vamos Falar de Saúde” reforçou a importância do diagnóstico precoce do pé boto, da adesão ao tratamento e do envolvimento familiar. Com acompanhamento adequado, é possível corrigir a deformidade e garantir uma melhor qualidade de vida às crianças afectadas.